sábado, 11 de dezembro de 2010

O Homem Chamado Amor


UM HOMEM CHAMADO CHICO XAVIER


A alegria é o meu caminho!
A verdade é a minha luz!
E é esse passo iluminado,
Que para o Pai me conduz.

Paciência é o meu lema.
Caridade é minha missão.
Solidão não é algo que eu tema.
Pois todo próximo eu chamo de irmão.

Simplicidade torna a vida mais singela.
Humildade é a minha conduta desejada.
Pois como a flor pequenina e bela,
Voarei pela brisa perfumada.

Meu espírito viaja pelo mundo.
Distribuindo sorrisos de luz.
Lembrando a quem ainda sofre profundo,
Que a esperança sempre renasce,
Quando voltamos os olhos para Jesus.

Minha vida dediquei a Doutrina.
Servidor do mundo espiritual.
Tendo a paz como maestrina,
E a felicidade como bem divinal.

Não temas companheiro, o caminho difícil.
Te ampararei nos momentos de dor.
Pois sou teu amigo para o que der e vier.
E se precisares sentir um pouco do amor
Chama sempre este teu irmão, Chico Xavier.

CARLOS MEDEIROS

Aniversário do Mestre 2


ASA BRANCA


Quando oiei a terra ardendo
Qual a fogueira de São João
Eu preguntei a Deus do céu,ai
Por que tamanha judiação

Que braseiro, que fornaia
Nem um pé de prantação
Por farta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Inté mesmo a asa branca
Bateu asas do sertão
"Intonce" eu disse adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração

Hoje longe muitas légua
Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Pra mim vortar pro meu sertão

Quando o verde dos teus óio
Se espanhar na prantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu vortarei, viu
Meu coração

LUÍZ GONZAGA

Aniversário do Mestre



FEITIÇO DA VILA


Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos,
Do arvoredo e faz a lua,
Nascer mais cedo.

Lá, em Vila Isabel,
Quem é bacharel
Não tem medo de bamba.
São Paulo dá café,
Minas dá leite,
E a Vila Isabel dá samba.

A vila tem um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem
Tendo nome de princesa
Transformou o samba
Num feitiço descente
Que prende a gente

O sol da Vila é triste
Samba não assiste
Porque a gente implora:
"Sol, pelo amor de Deus,
não vem agora
que as morenas
vão logo embora

Eu sei tudo o que faço
sei por onde passo
paixao nao me aniquila
Mas, tenho que dizer,
modéstia à parte,
meus senhores,
Eu sou da Vila!

NOEL ROSA



sábado, 27 de novembro de 2010

Vítima Civil
















ALVORADA NO MORRO



Amanhece o dia em alguma favela,
O Rio de Janeiro desperta.
E em um breve momento
Alguém se aproxima da janela.
Voltando os olhos ao céu,
Pintado ainda pelo vermelho
De um esperado alvorecer,
Que finda a noite de medo.
Uma oração se ouve baixinho:
Pai, mais um dia inicia
E devo deixar o lar,
Seguir em frente,
Preciso ir trabalhar.
A guerra explodiu lá fora,
As armas cospem sua intolerância.
Anunciam que é chegada a hora,
Do domínio do medo e da violência.
A nossa paz a muito foi embora.
Por isso te peço proteção,
Cuida do meu caminhar.
Aquieta meu coração,
Não me deixa tombar.
Pois ao lar eu quero tornar,
Meus filhos abraçar,
Minha mulher beijar.
Pai, por favor, nos proteja,
Para que o sangue que pinta o céu,
Não seja o meu.
Amém.

CARLOS MEDEIROS

Escândalo Moral




















DIÁRIO DE UM BRASILEIRO




O brasileiro convive bem com o escândalo moral.
Os ladrões infestam os salões de luxo,
os Bancos estouram, os banqueiros
são cumprimentados com reverência,
o Presidente do Congresso chama o senador
de bandido, sim senhor, vossa excelência.

O Presidente diz pela televisão
que "é preciso acabar com a roubalheira
nos dinheiros públicos".
As pessoas das cidades grandes
vivem amedrontadas, qualquer
transeunte pode ser um assaltante.
As meninas cheiram cola. Depois
vão dar o que têm de mais precioso
ao preço de um soco na cara desdentada.

O brasileiro convive com o escândalo
como se fosse o seu pão de cada dia,
com uma indiferença letal.

Como se dormir na casa com um rinoceronte,
mas rinoceronte mesmo,
fosse a coisa mais natural do mundo,
chegando a cheirar a camélias.

O povo, um dia.

Do povo vai depender
a vida que vai viver,
quando um dia merecer.
Vai doer, vai aprender.

THIAGO DE MELLO

domingo, 21 de novembro de 2010

Sem Sentimentos


















SEM NADA


Queria poder te falar de amor.
Realizar teus sonhos.
Tocar teu coração,
Alegrar tua alma.
Queria poder te carregar em meus braços.
Te mostrar o mundo,
te levar aos céus,
E te dar o paraíso.
Mas não possuo nada,
Não carrego sentimento.
Estou vazio neste momento.
E se não te dou,
É porque não tenho.
Tive...
Mas não sei onde perdi.
Por isso então,
te peço desculpas, perdão.
Pelo nada entregue em sua mão.

CARLOS MEDEIROS

Ela Disse Não!
























ELEGIA




E quando o homem emudece em seu tormento
A mim me deu um deus dizer tudo o que sofro.
Que hei de esperar agora para tornar a vê-la,
Da flor ainda fechada deste dia?
O paraíso, o inferno estão-te abertos;
Que oscilantes sentimentos no teu peito! -Não há como duvidar!
Ei-la à porta do céu,
É Ela que te eleva e te acolhe em seus braços.

Foste assim recebido então no Paraíso,
Como se merecesses vida eterna e bela;
Não te ficou desejo esperança ou anseio,
Tinha aqui o seu termo a aspiração mais íntima.
E na contemplação desta única beleza
Logo a fonte secou das lágrimas saudosas.

Como o dia agitava as suas asas céleres
E parecia levar ante si os minutos!
O beijo da tardinha, selo fiel a unir:
E assim será ainda para o sol de amanhã.
As horas, semelhantes no seu fluir brando,
Como irmãs eram, mas nenhuma igual às outras.

Esse último beijo, doce e cruel, rompeu
Enredo esplêndido de amores entrelaçados.
Meu passo ora se apressa, ora pára, e evita
O limiar, como expulso por anjo de fogo;
O olhar fixa desanimado o caminho sombrio,
Volta-se ainda para trás, vê a porta fechada.

E sobre si fechado agora, o coração,
Como se jamais se abrira, e horas felizes,
Rivais em brilho dos astros todos do céu,
Não tivesse sentido nunca ao lado dela;
E desgosto, pesar, censura, pesadelo
O carregam neste ambiente que o sufoca.

Pois não te resta ainda o mundo? Estes rochedos
Não estão eles coroados de sagradas sombras?
Não amadurece os frutos? Um campo verde
Não corre à beira do rio entre bosques e prados?
E não se arqueia essa Grandeza além dos mundos,
Ora rica de formas, ora em breve sem formas?

Quão leve e graciosa, em tecido claro e suave,
Qual Serafim, de entre o coro de nuvens pesadas,
Como que igual a Ela, no céu azul,
Forma esbelta paira de aroma resplandecente;
Tal qual tua a viste bailar em dança alegre,
Das formas adoráveis a mais adorável.

Mas é só por momentos que atrever-te podes
A reter em vez dela um etéreo fantasma;
Regressa ao coração! Melhor a encontrarás,
É lá que Ela se move em figuras mudáveis;
Em muitas se converte a Forma Uma,
Em milhares delas, cada vez mais querida.

Como para receber-me Ela esperava à porta,
E, degrau a degrau, me levava à Felicidade;
Depois do último beijo me alcançava ainda
Para me premir nos lábios o último de todos:
Tão nítida, tão viva fica a imagem da Amada
Inscrita com chamas no coração fiel.

No coração, firme qual muralha de castelos
Que para Ela se guarda e dentro em si a guarda,
E por Ela se alegra ao sentir que ainda vive,
E só sabe de si quando Ela se revela,
E se sente livre em prisões tão amadas,
E não luta senão de gratidão por Ela.

Se apagadas estavam dentro de mim
A capacidade e a precisão de amar,
O desejo de esperança de alegres projetos,
De decisões, de ação veloz, logo voltou!
E se o amor jamais deu ânimo ao amante,
Ficou provado em mim do modo mais amável.

E só graças a Ela! - Que íntimo temor
De importuno peso dentro da alma e do corpo!
O olhar rodeado de imagens horrorosas
Na aridez de um coração deserto e oprimido;
Eis que alvorece a esperança à porta conhecida,
E Ela mesma aparece à luz de um sol suave.

À paz de Deus, que aqui na terra vos concede
Mais ventura que a razão - dizem os livros -
Comparo esta paz serena do amor
Na presença do ser entre todos amado;
Repousa o coração, nada vem perturbar
Este profundo sentir de só lhe pertencer.

No mais puro do peito uma ânsia se agita
De espontâneos nos darmos só por gratidão
A alguma coisa de mais alto, puro, desconhecido,
Que em nós resolve o Enigma Inominado;
Chamamos-lhe: Piedade! - Esse êxtase feliz
Sinto-o dentro de mim quando estou perante Ela.

Ao seu olhar, como ao do sol que nos governa,
Ao seu hálito, como às brisas primaveris,
Funde, bem rígido de gelo que estivesse,
O egoísmo no fundo de antros hibernais;
Nem interesse mesquinho ou vontade que durem,
Tudo isso o vento leva quando Ela vem.

É como se Ela dissesse: "Hora após hora
Se nos oferta amigável a vida;
Do que ontem passou bem pouco já sabemos;
O que amanhã virá é proibido sabê-lo;
E sempre que ao cair da noite tive medo,
Ao pôr-do-sol eu via ainda algo que me alegrava."

"Faz pois como eu faço e olha, alegre e sensato,
O momento de frente! Sem qualquer demora!
Acolhe-o depressa, benévolo e vivaz,
Quer para a alegria na ação, quer para o amor;
Onde tu estejas, sê tudo, infantil sempre,
E assim serás tudo, e serás invencível."

Bem fácil te é falar - pensei -; pois um deus
Te deu por companhia a graça do instante,
E cada qual se sente, em tua graciosa presença,
Mesmo nesse momento o dileto dos Destinos;
Assusta-me o sinal que me manda afastar-me
De ti - para quê tão alta sabedoria?!

E agora estou longe! Ao minuto presente
O que é que lhe convém? Não saberia dizê-lo;
Com a beleza me oferece ele muitas coisas boas
Que apenas pesam, e tenho que repeli-las;
Uma ânsia indomável faz-me andar errante,
E lágrimas sem fim é tudo o que me resta.

Ora brotai então! E correi sem parar,
Que este fogo interior sufocar não podeis!
Violento furor me dilacera o peito
Onde a vida e a morte ferem luta feroz.
Para as dores do corpo, sim, remédios encontraria;
Mas ao espírito falta a decisão, o querer,

O poder compreender: - Como passar sem Ela?
E vai repetindo mil vezes essa imagem,
Que ora paira hesitante, ora lhe é arrancada,
Ora confusa, ora brilhante em pura luz;
Como poderia dar-me o mínimo conforto
Este fluxo e refluxo, este vir e partir?

Abandonai-me aqui, meus fiéis companheiros!
Deixai-me ao pé do precipício, entre o pântano e o musgo;
Segui vosso caminho! Olhai o mundo aberto.
A imensa terra, o céu sublime e grande;
Observai, procurai, colecionai os fatos,
Balbuciai o mistério da Natureza.

Para mim perdeu-se o Todo, eu mesmo me perdi,
Eu, que há bem pouco fui o preferido dos deuses;
À prova me puseram, deram-me Pandora,
De bens tão rica, mais rica ainda de perigos;
Impeliram-me para a boca dadivosa,
Separaram-me dela, e assim me aniquilam.

JOHANN WOLFGANG VON GOETHE

domingo, 7 de novembro de 2010

Fome de Quê?























SOCIEDADE ANTROPOFÁGICA




No início devoramos alguns europeus.
E outros fugiram a espalhar,
Que encontrar um povo sem Deus,
Nas terras de além-mar.

Até hoje nos devoramos,
Em rituais de atos e palavras.
Com nossas formas nos deliciamos.
Enquanto eles devoram nossas mascaras.

Eu te devoro,
Tu me devoras,
Ela o devora,
E nós, devoramos a todos.

Somos eternos famintos.
Fome de igualdade,
Fome de justiça,
Fome de comida, mas...

Nos fartamos de egoísmo,
Nos empanturramos de orgulho,
Nos saturamos de falso heroísmo.
Para depois vomitarmos o nosso cinismo.

Roemos até o osso,
De uma sociedade destruída.
Com lama até o pescoço,
Procurando migalhas apodrecidas.

Devoramos nosso mundo.
Não dividimos nada.
Pois tudo que caído chega ao fundo,
É alimento que engorda e mata.

CARLOS MEDEIROS

Tudo Igual





















CARTA AOS MORTOS


Amigos, nada mudou
em essência.
Os salários mal dão para os gastos,
as guerras não terminaram
e há vírus novos e terríveis,
embora o avanço da medicina.
Volta e meia um vizinho
tomba morto por questão de amor.
Há filmes interessantes, é verdade,
e como sempre, mulheres portentosas
nos seduzem com suas bocas e pernas,
mas em matéria de amor
não inventamos nenhuma posição nova.
Alguns cosmonautas ficam no espaço
seis meses ou mais, testando a engrenagem
e a solidão.
Em cada olimpíada há récordes previstos
e nos países, avanços e recuos sociais.
Mas nenhum pássaro mudou seu canto
com a modernidade.
Reencenamos as mesmas tragédias gregas,
relemos o Quixote, e a primavera
chega pontualmente cada ano.
Alguns hábitos, rios e florestas
se perderam.
Ninguém mais coloca cadeiras na calçada
ou toma a fresca da tarde,
mas temos máquinas velocíssimas
que nos dispensam de pensar.
Sobre o desaparecimento dos dinossauros
e a formação das galáxias
não avançamos nada.
Roupas vão e voltam com as modas.
Governos fortes caem, outros se levantam,
países se dividem
e as formigas e abelhas continuam
fiéis ao seu trabalho.
Nada mudou em essência.
Cantamos parabéns nas festas,
discutimos futebol na esquina
morremos em estúpidos desastres
e volta e meia
um de nós olha o céu quando estrelado
com o mesmo pasmo das cavernas.
E cada geração , insolente,
continua a achar
que vive no ápice da história.

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Sozinho
















SOLIDÃO


Hoje me sinto só.
Meu coração bate assustado,
Tão triste que faz dó.
Caminho desamparado.
Procuro alguém...
Um amigo, uma amiga,
Que me faça o bem,
De preencher o espaço vazio.
E que mande esta saudade para o além.
Mas o espaço infinito me traz frio.
E meu corpo treme por não ter você.
Onde foram parar todos os companheiros,
Das bebedeiras que seguiam noite adentro?
As amigas dos carinhos e os amigos seresteiros?
Onde estão os bares, os bilhares?
Os lares onde eu ia amar?
Perdi tudo e todos...
Sozinho agora devo caminhar.
Pois troquei minha vida,
Pelo desejo de te amar.
Essa foi minha grande ilusão.
E como castigo, o que posso esperar?
Além dessa solidão,
Que a minh´alma traz tanto pesar.

CARLOS MEDEIROS

Desamor



















NÃO SE MATE



Carlos sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
Reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

sábado, 16 de outubro de 2010

Sentimento e Dor



















SILÊNCIO


Faltam-me palavras,
Para expressar o que eu sinto.
E são poucas as horas para esquecer.
E é por isso que eu minto,
Uma alegria inexistente,
Um sorriso ausente,
Uma saudade que não se sente,
Um amor indigente.
O silêncio é dialogo freqüente,
De uma vida que já morreu.
E a esperança me torna um zumbi,
Que caminha perdido,
Buscando aqui e ali,
Pela felicidade que você me prometeu.
Onde está você,
Que não traz o que é meu?
Minha alma, minha mente, minha voz...
Livra-me deste destino atroz,
Que leva meu corpo a sofrer,
Com a ingratidão do meu algoz.
Por favor cala esse sentimento,
Silenciando para sempre dentro de mim,
As lembranças de nossos momentos.

CARLOS MEDEIROS

Fluindo



















PROTOPOEMA


Do novelo emaranhado da memória, da escuridão dos
nós cegos, puxo um fio que me aparece solto.
Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os dedos.
É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos,
e tem a macieza quente do lodo vivo.
É um rio.
Corre-me nas mãos, agora molhadas.
Toda a água me passa entre as palmas abertas, e de
repente não sei se as águas nascem de mim, ou para
mim fluem.
Continuo a puxar, não já memória apenas, mas o
próprio corpo do rio.
Sobre a minha pele navegam barcos, e sou também os
barcos e o céu que os cobre e os altos choupos que
vagarosamente deslizam sobre a película luminosa dos olhos.
Nadam-me peixes no sangue e oscilam entre duas
águas como os apelos imprecisos da memória.
Sinto a força dos braços e a vara que os prolonga.
Ao fundo do rio e de mim, desce como um lento e
firme pulsar do coração.
Agora o céu está mais perto e mudou de cor.
É todo ele verde e sonoro porque de ramo em ramo
acorda o canto das aves.
E quando num largo espaço o barco se detém, o meu
corpo despido brilha debaixo do sol, entre o
esplendor maior que acende a superfície das águas.
Aí se fundem numa só verdade as lembranças confusas
da memória e o vulto subitamente anunciado do futuro.
Uma ave sem nome desce donde não sei e vai pousar
calada sobre a proa rigorosa do barco.
Imóvel, espero que toda a água se banhe de azul e que
as aves digam nos ramos por que são altos os
choupos e rumorosas as suas folhas.
Então, corpo de barco e de rio na dimensão do homem,
sigo adiante para o fulvo remanso que as espadas
verticais circundam.
Aí, três palmos enterrarei a minha vara até à pedra viva.
Haverá o grande silêncio primordial quando as mãos se
juntarem às mãos.
Depois saberei tudo.

JOSÉ SARAMAGO

domingo, 10 de outubro de 2010

Em Busca
























OLHARES



Na multidão que todo dia passa,

Encontro sorrisos, olhares.
Mas neles não há nada que faça,
Me esquecer de você.
O que adianta convites,
Se para mim essas pessoas,
São apenas ouvintes,
De tudo o que sinto por você.
De que adianta ir a festas ou badalações,
Se na verdade o que eu quero,
É unir nossos corações.
Se olho para a multidão,
É porque busco teu rosto,
Pois é com seu sorriso,
Que sossego meu coração.

CARLOS MEDEIROS

Imagem Distorcida
























DOLORES

Hoje me deu tristeza,
sofri três tipos de medo
acrescido do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
não tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
"Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência..."
Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia...
e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos...
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentaram os pilares do mundo, porque mesmo viúvas dignas
não recusam casamento, antes acham sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo
e varrer a casa de manhã.

Uma tal esperança imploro a Deus.

ADÉLIA PRADO

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Iluminado























ANJO DE LUZ


Meu coração voa quando te vejo.
É como se ele criasse asas.
E se tornasse um anjo.
Iluminado pelo desejo de estar ao seu lado.
Queria eu poder estar junto a ti,
Invisível aos olhos,
Mas tangível ao seu coração.
Seu anjo de luz,
Transbordando de bela emoção.
Se sorrires,
Estaria eu a sorrir.
Se sofresses,
Iria contigo sentir.
Se chorasses,
Minhas lágrimas iriam cair.
Então lembre-se,
Enquanto quiserdes,
Estarei sempre junto a ti.
Pois, teu caminho irei iluminar,
Como sua estrela guia.
Um anjo de luz e alegria,
Que veio ao mundo para poder te amar.

CARLOS MEDEIROS

domingo, 15 de agosto de 2010



















O FOGO QUE NA BRANDA CERA ARDIA

O fogo que na branda cera ardia,
Vendo o rosto gentil que na alma vejo.
Se acendeu de outro fogo do desejo,
Por alcançar a luz que vence o dia.

Como de dois ardores se incendia,
Da grande impaciência fez despejo,
E, remetendo com furor sobejo,
Vos foi beijar na parte onde se via.

Ditosa aquela flama, que se atreve
Apagar seus ardores e tormentos
Na vista do que o mundo tremer deve!

Namoram-se, Senhora, os Elementos
De vós, e queima o fogo aquela nave
Que queima corações e pensamentos.


LUÍS DE CAMÕES

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Mais Saudade
















CADÊ VOCÊ ?


A chuva cai lá fora.
A tristeza inunda minha mente.
A saudade aperta meu peito, enormemente.
E o coração bate descompassado, lento.
Esperando por quem foi embora.
Lembrança perdida no tempo.
Esperança que voa mundo afora,
Buscando o sorriso que ilumina,
A voz que é bela,
O corpo que apaixona.
Uma gota de chuva escorre pela janela.
E minhas lágrimas turvam o mundo.
A dor machuca profundo.
E a alma sente a falta que você me faz.
As nuvens passam,
As lágrimas secam,
Mas a saudade... Fica.

CARLOS MEDEIROS

No Verão...














SENSAÇÃO


Pelas tardes azuis do Verão irei pelas
sendas,


Guarnecidas pelo trigal,
pisando a erva miúda:


Sonhador, sentirei a
frescura em meus pés.


Deixarei o vento banhar
minha cabeça nua.

Não falarei mais, não
pensarei mais:

Mas um amor infinito me
invadirá a alma.

E irei longe, bem longe,
como um boêmio,

Pela natureza, - feliz
como com uma mulher.

ARTHUR RIMBAUD

domingo, 18 de julho de 2010

Sem Rumo















ENCRUZILHADAS


Decerto que a vida nos conduz a encruzilhadas.
Caminhos que nos cercam,
Desequilíbrios e alegrias a espera de uma decisão.
Atônitos e sem resposta nos calamos,
Perante tudo que surge diante de nós.
A vida para, e os desejos deixam de pulsar,
Coagulando a seiva vital que escorre
Para o érebo lúgubre de nosso silêncio.
O odor acre de nossa inércia,
Anuncia a morte cerebral.
Então nada se produz ou nasce,
Nesse infecundo ser.
Os sonhos não iluminam mais,
E o enoitecer sobre nossas almas,
Despertam pássaros noctívolos,
Com seus horripilantes grasnidos.
Saciam-se das vísceras de uma esperança morta.
Quantas mortes ainda teremos que suportar?
Os invólucros abandonados pelo caminho,
Levantarão ao soar dos sinos no campanário.
Fatícanos do último apocalipse.
O azorrague estala sobre nossas cabeças.
A multidão tem que caminhar,
Pois o destino é caminho longo e sinuoso.
Minha alma cansada não agüenta mais.

CARLOS MEDEIROS

Poeta de São Paulo














PARANOIA



Eu vi uma linda cidade cujo nome esqueci
onde anjos surdos percorrem as madrugadas tingindo seus olhos com
lágrimas invulneráveis
onde crianças católicas oferecem limões para pequenos paquidermes
que saem escondidos das tocas
onde adolescentes maravilhosos fecham seus cérebros para os telhados
estéreis e incendeiam internatos
onde manifestos niilistas distribuindo pensamentos furiosos puxam
a descarga sobre o mundo
onde um anjo de fogo ilumina os cemitérios em festa e a noite caminha
no seu hálito
onde o sono de verão me tomou por louco e decapitei o Outono de sua
última janela
onde o nosso desprezo fez nascer uma lua inesperada no horizonte
branco
onde um espaço de mãos vermelhas ilumina aquela fotografia de peixe
escurecendo a página
onde borboletas de zinco devoram as góticas hemorróidas das
beatas
onde os mortos se fixam na noite e uivam por um punhado de fracas
penas
onde a cabeça é uma bola digerindo os aquários desordenados da
imaginação

ROBERTO PIVA

Longa Espera
















Em alguns momentos de nossas vidas parece que tudo para.
Não temos nada a dizer...

domingo, 13 de junho de 2010

Epidemia Brasileira



OURO DOS TOLOS

Quem já sentiu por essas esquinas,
O odor de plástico queimando.
Onde giram e caem as meninas,
Onde os meninos estão se matando.
Caminham incertos e desesperados,
Procuram a euforia e a ilusão.
Sabem que só possuem uns 30 segundos,
Para viverem a alegria que lhes escapa às mãos.
Mas esse tempo já é o bastante,
É o suficiente para o corpo entorpecer.
Para a mente viajar à sonhos distorcidos,
Pois só assim da realidade conseguem esquecer.
Tornam-se garimpeiros de sua própria sorte.
Buscam a toda hora pelas pedras preciosas,
Com que irão comprar a própria morte.
E descansar eternamente,
Em suas noites tenebrosas.
Seus corpos se decompõem lentamente,
E seus ossos estão expostos,
A esta sociedade inconseqüente.
São almas que descem pelo ralo.
E deságuam ao redor de nós.
Fingimos que não sentimos o lodo em nossos pés,
Pois na cegueira de nossas vidas,
Não acordamos para esse incomodo viés.

CARLOS MEDEIROS

Pranto














HÃO DE CHORAR POR ELA OS CINAMOMOS


Hão de chorar por ela os cinamomos,
murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão: "Ai - nada somos
Pois ela se morreu silente e fria..."
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: - "Por que não vieram juntos?"


ALPHONSUS DE GUIMARAENS

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Doce Olhar
















HONEY EYES


Olhos de mel,
Doce visão,
Que espelha o céu
E adocica o coração.

Olhos castanhos,
Claros e brilhantes.
Refletem o desejo,
Que arde nos amantes.

Olhos grandes,
Como os sonhos.
Que brotam na forma de flores,
Perfumando a alma de todos.

Pobres são meus olhos,
Que procuram os teus.
Como a ilusão da miragem,
Que nunca alcançará.

CARLOS MEDEIROS

Lírio Poético















O MENINO LOUCO


Eu te paguei minha pesada moeda,
Poesia...
Ó teus espelhos deformantes e límpidos
Como a água! Sim, desde menino,
Meus olhos se abriam insones como flores no escuro
Até que, longe, no horizonte, eu via
A Lua vindo, esbelta como um lírio...
Às vezes numa túnica de Infanta
Sonâmbula...Às vezes virginalmente nua...
E era branca como as nozes que os esquilos
descascam na mata...
Pura como um punhal de sacrifício...
(Em meus lábios queimava-se, ignorada,
a palavra mágica!)

MARIO QUINTANA

domingo, 16 de maio de 2010

Agua na Boca

 

UM BEIJO

Um dia me perguntaram.
Tu que já amou,
Sabes o segredo do beijo?


Em meus poucos conhecimentos,
Me veio um único pensar.
Que beijar é forte instrumento,
Daquele que sabe amar.


Beijar tem sabor de rosas,
Beijar tem gosto de amor.
Beijar em despedida,
É prenúncio de dor.


Beijar é brilho no olhar.
Beijar é vontade louca,
Que busca a cura,
Na maciez de sua boca.


Beijar é roubo sem maldade.
Beijar é alívio na tempestade.
Beijar é matar a saudade.
Beijar é mergulho profundo na eternidade.


Beijar é voar nas nuvens.
Beijar é cair no mar.
Beijar é deitar em flores.
Beijar é necessidade de sonhar.


Beijar é como seda macia,
Que desliza suave pelo corpo.
Beijar é como luz de vela,
Que se esvai lentamente.


Beijar é frio intenso,
Que faz tremer o corpo tenso.
Beijar é medo da solidão,
Que deixa inquieto o coração.


Beijar é morrer contente.
Beijar é renascer imponente.
Beijar é perfume no ar.
Beijar é alma a delirar.


Então agora respondo com calma.
Beijar é desejo sem fim.
Que se encerra docemente,
Em belos lábios de cor carmim.

CARLOS MEDEIROS

  


sábado, 15 de maio de 2010

Sempre Juntos




















JUNTO A TI ESQUECEREI


I


Junto a ti esquecerei as inúmeras partidas
- as cordas e as amarras nunca se quebraram
e talvez por isso eu permanecerei imóvel sob a tua influência...
Tu pesarás para mim como produto de âncoras
como a pedra amarrada do pescoço do pecador.
Os portos passarão a ser beira de cais
as terras longínquas nada mais me dizem
- quebrei a bússola para evitar a tentação.
Tua presença é poderosa como urros na floresta.
Sinto que extingues em mim
a sombra dos navegadores.


II


A tua atitude te eleva para o alto.
Vejo que cortaste definitivamente todas as amarras.
Daqui eu adivinho os olhos dos homens
perdidos no tempo que nada descobrirão de ti.
Deixa que os não-poetas falem de tua beleza,
esses nunca compreenderão o que há em ti de sombra,
de sementes germinando, de vozes de cavernas.
Nem ao menos que é o teu olhar que nos aproxima
que nos torna irmãos para o resto do tempo.
Eu te reconheceria entre todas, porque tua presença eu a pressinto.
Deixa que tuas formas eles a tomem pela essência.
Esses te perderão ainda mais
e nunca compreenderão tuas inúmeras sugestões
que tu mesma desconheces.


III


Esquecerei os teus convites de fuga.
As coisas presentes serão absolutamente insignificantes.
Sentir-me-ei em tua presença como o primeiro homem
que se ia apoderando de todas as formas desconhecidas.


IV


Esquecerei todos os convites de fuga.
Os portos serão para nós apenas
as âncoras e as amarras.
Nossos olhos não mais distinguirão
caravelas e transatlânticos sobre o mar.
Nossos ouvidos não mais perceberão
o barulho das ondas que são um chamamento constante.
Então leremos poetas bucólicos
debaixo de uma árvore que deverá ser frondosa.
Indefinidamente rodaremos em torno dela como num carrossel,
indefinidamente estarás comigo.

JOÃO CABRAL DE MELO NETO


domingo, 2 de maio de 2010

Sonho e Desejo.

PÁSSARO SEM NINHO.


Queria um colo...
Para nele poder me aninhar
E no macio desse aconchego,
Como um passarinho sonhar.

Então voar...
Como quem busca a liberdade.
Livrando-me do mal estar,
De viver nessa verdade.
Que é a falta eu você me faz.

Queria um colo...
Para sentir seu calor,
Deliciar-me com seu doce sabor.
Deleitar-me com o suave odor.
E extasiado, me cobrir com seu amor.

Mas sempre desperto sentindo frio.
Com a solidão dormindo ao meu lado.
No meu corpo apenas o vazio,
De quem amou, mas nunca foi amado.

CARLOS MEDEIROS

Muitas Saudades !















NA SOLIDÃO DAS NOITES ÚMIDAS



Como tenho pensado em ti na solidão das noites úmidas,
De névoa úmida,
Na areia úmida!
Eu te sabia assim também, assim olhando a mesma cousa
No ermo da noite que repousa.
E era como se a vida,
Mansa, pousasse as mãos sobre a minha ferida...

Mas, ah! como eu sentia
A falta de teu ser de volúpia e tristeza!
O mar... Onde se via o movimento da água,
Era como se a ádua estremecesse em mil sorrisos.
Como uma carne de mulher sob a carícia.
O luar era um afago tão suave,
- Tão imaterial -
E ao mesmo tempo tão voluptuoso e tão grave!
O luar era a minha inefável carícia:
A água era teu corpo a estremecer-se com delícia.

Ah! em música, pôr o que eu então sentia!
Unir no espasmo da harmonia
Esses dois ritmos contrastantes:
O frêmito tão perdidamente alegre de amor sob a carícia
E essa grave volúpia da luz branca.

Oh! viver contigo!
Viver contigo todos os instantes...
Harmoniosa e pura,
Sem lastimar a fuga irreparável dos anos,
Dos anos lentos e monótonos que passam,
Esperando sempre que maior ventura
Viesse um dia no beijo infinito da mesma morte...

MANUEL BANDEIRA