quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Outra Noite...



















NOITE PARA O AMOR



Serena noite, belo luar,
Brisa leve, doce sonho de amar...
Desejos na noite calma,
Lembranças queridas,
Que voltam do fundo d´alma.
Não sei dizer quanto te gosto.
Certeza só do meu viver,
Que depende inteiramente do teu sorriso,
Do teu olhar,
De tua boca,
Da tua forma de beijar...

CARLOS MEDEIROS

Noite Mágica

BOA-NOITE

Boa-noite, Maria! Eu vou-me embora.

A lua nas janelas bate em cheio.
Boa-noite, Maria! É tarde...é tarde...
Não me apertes assim contra teu seio.


Boa-noite!...E tu dizes - Boa-noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não mo digas descobrindo o peito,
- Mar de amor onde vagam meus desejos.


Julieta do céu! Ouve...a Calhandra
Já rumoreja o canto da matina.
Tu dizes que eu menti?...pois foi mentira...
...Quem cantou foi teu hálito, divina!


Se a estrela d'alva os derradeiros raios
Derrama nos jardins do Capuleto,
Eu direi, me esquecendo d'alvorada:
"É noite ainda em teu cabelo preto..."


É noite ainda! Brilha na cambraia
- Desmanchado o roupão, a espádua nua -
O globo de teu peito entre os arminhos
Como entre as névoas se balouça a lua...


É noite, pois! Durmamos, Julieta!
Recende a alcova ao trescalar das flores,
Fechemos sobre nós estas cortinas...
- São as asas do arcanjo dos amores.


A frouxa luz da alabastrina lâmpada
Lambe voluptuosa os teus contornos...
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doudo afago de meus lábios mornos.


Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos
Treme tua alma, como a lira ao vento,
Das teclas de teu seio que harmonias,
Que escalas de suspiros, bebo atento!


Ai! Canta a cavatina do delírio,
Ri, suspira, soluça, anseia e chora...
Marion! Marion!...É noite ainda.
Que importa os raios de uma nova aurora?!...


Como um negro e sombrio firmamento,
Sobre mim desenrola teu cabelo...
E deixa-me dormir balbuciando:
- Boa-noite! - formosa Consuelo!...

CASTRO ALVES

domingo, 8 de novembro de 2009

Flagelo Moderno

VÍCIO

O que você tem a me oferecer,
Além dessa loucura desmedida?
Desse tormento que nunca termina?
Desse desespero por uma alegria perdida?
Eu te procuro por toda cidade,
Alucinado pelo prazer por ti ofertado.
Sem me importar com o preço cobrado.
Você se transforma em minhas mãos.
Se torna o pó da minha vida,
Que eu absorvo até sangrar.
Fluindo em movimentos alucinantes,
Que explodem com a força de mil amantes.
Mas uma de ti só não basta.
Por isso essa busca não termina.
E sigo tentando te encontrar.
Caçando uma felicidade,
Que você finge me dar.
Sou inconsciente de tua verdade,
Conhecedor apenas de tua maldade.
Te querer é pura covardia,
Pois sei que contigo morro todo dia.

CARLOS MEDEIROS

Tenebrosa Noite dos Anjos




QUEIXAS NOTURNAS

Quem foi que viu a minha Dor chorando?!
Saio. Minh'alma sai agoniada.
Andam monstros sombrios pela estrada
E pela estrada, entre estes monstros, ando!


Não trago sobre a túnica fingida
As insígnias medonhas do infeliz
Como os falsos mendigos de Paris
Na atra rua de Santa Margarida.


O quadro de aflições que me consomem
O próprio Pedro Américo não pinta...
Para pintá-lo, era preciso a tinta
Feita de todos os tormentos do homem!


Como um ladrão sentado numa ponte
Espera alguém, armado de arcabuz,
Na ânsia incoercível de roubar a luz,
Estou à espera que o Sol desponte!


Bati nas pedras dum tormento rude
E a minha mágoa de hoje é tão intensa
Que eu penso que a Alegria é uma doença
E a Tristeza é minha única saúde!


As minhas roupas, quero até rompê-las!
Quero, arrancado das prisões carnais,
Viver na luz dos astros imortais,
Abraçado com todas as estrelas!


A Noite vai crescendo apavorante
E dentro do meu peito, no combate,
A Eternidade esmagadora bate
Numa dilatação exorbitante!


E eu luto contra a universal grandeza
Na mais terrível desesperação...
É a luta, é o prélio enorme, é a rebelião
Da criatura contra a natureza!


Para essas lutas uma vida é pouca
Inda mesmo que os músculos se esforcem;
Os pobres braços do mortal se torcem
E o sangue jorra, em coalhos, pela boca.


E muitas vezes a agonia é tanta
Que, rolando dos últimos degraus,
Hércules treme e vai tombar no caos
De onde seu corpo nunca mais levanta!


É natural que esse Hércules se estorça,
E tombe para sempre nessas lutas,
Estrangulado pelas rodas brutas
Do mecanismo que tiver mais força.


Ah! Por todos os séculos vindouros
Há de travar-se essa batalha vã
Do dia de hoje contra o de amanhã,
Igual à luta dos cristãos e mouros!


Sobre histórias de amor o interrogar-me
É vão, é inútil, é improfícuo, em suma;
Não sou capaz de amar mulher alguma
Nem há mulher tavez capaz de amar-me.


O amor tem favos e tem caldos quentes
E ao mesmo tempo que faz bem, faz mal;
O coração do Poeta é um hospital
Onde morreram todos os doentes.


Hoje é amargo tudo quanto eu gosto:
A bênção matutina que recebo...
E é tudo: o pão que como, a água que bebo,
O velho tamarindo a que me encosto!


Vou enterrar agora a harpa boêmia
Na atra e assombrosa solidão feroz
Onde não cheguem o eco duma voz
E o grito desvairado da blasfêmia!


Que dentro de minh'alma americana
Não mais palpite o coração - esta arca
Este relógio trágico que marca
Todos os atos da tragédia humana! -


Seja esta minha queixa derradeira
Cantada sobre o túmulo de Orfeu;
Seja este, enfim, o último canto meu
Por esta grande noite brasileira!


Melancolia! Estende-me a tua asa!
És a árvore em que devo reclinar-me...
Se algum dia o Prazer vier procurar-me
Dize a este Monstro que eu fugi de casa!

AUGUSTO DOS ANJOS

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Envolvimento


LEMBRANÇAS



Sua voz toca meus ouvidos,
Como um sopro frio da manhã.
Arrepia meu corpo,
Mas aquece meu coração.


Leva-me em sonho,
Carrega-me em alegria.
Ilumina minha alma,
E torna perfeito o raiar do meu dia.


Minha mente voa ao lembrar teu nome.
Como um balão que colore o céu,
E faz sorrir o menino.
És como um passarinho,
Que de mansinho vem, com seu canto encantar.


Contigo viajo em êxtase.
Como pensamento que vai longe.
E te toca com um leve beijo.
Transferindo tudo aquilo que desejo.
E a distância não consegue apagar.


És como bruma sobre o mar.
Que se dissipa quanto tento tocar.
Tua lembrança me envolve como névoa densa.
E o orvalho encharca minha alma.
Teu perfume me transporta a jardim de beleza imensa.
Onde encontro a paz e toda minha vida se acalma.


És montanha intransponível,
Que testa a força do meu gostar.
Mas tua energia me torna guerreiro invencível.
E mesmo de longe consigo te abraçar,
te amar...


És desejo ardente.
Corrente elétrica a percorrer as veias do meu corpo.
Fazendo brilhar com intensa luz meu coração.
Tu és um sonho, o meu ideal.
A minha doce realidade virtual.

CARLOS MEDEIROS

Despedida


















MEU DEUS, ME DÊ CORAGEM

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
meu pecado de pensar.

CLARICE LINSPECTOR

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Atendendo Uma Grande Amizade

















MEU SOL


Depois da noite escura,
Que assustou minh’alma.
Da tempestade tenebrosa,
Que inquietou meu coração.
Eis que chega a calma...
Sinto essa energia gostosa,
Que como sol no firmamento,
Ilumina toda a escuridão do meu ser.
Desperta toda a força de um sentimento.
Que eu não conhecia,
Que eu não podia conceber.
Com ela mudaria o mundo,
Faria coisas que eu não poderia crer.
Tudo isso para que sempre,
Ao meu lado possa ter você.
E esse sorriso que enfeita meu rosto?
Esse arrepio que invade meu corpo?
Esse êxtase que alegra minha vida?
Essa felicidade que cura a ferida?
Que Deus permita que isso nunca tenha fim.
E que você meu sol,
Permaneça eternamente brilhando junto a mim.

CARLOS MEDEIROS

Guerra Civil














CÃES EM GUERRA


Os cães uivam na noite.
Nos cercam com sua teia assustadora.
Aproximam-se lentamente.
E nos aprisionam de forma avassaladora.
Ladram em bando.
Anunciam que vieram em guerra.
Sua armas, estão nos mostrando.
E prometem dominar toda a terra.
Por séculos os ignoramos.
Os esquecemos em suas favelas.
Distante de nós os aprisionamos.
Enquanto banqueteávamos em vida bela.
Mas a revolta já é certa.
E caímos um a um amedrontados.
Escondidos entre grades e alarmes,
Agora por eles somos aprisionados.
E nossos filhos estão órfãos,
De espaço,
De opção,
De liberdade.
Os cães em guerra estão famintos.

Invadiram a cidade.
O caos domina todos os recintos
Pois colocaram abaixo as nossas portas.
Agora somo nós que os servimos,
As sobras desta cidade morta.
Como vassalos esperamos calados,
A destruição que se mostra iminente.
Testemunhas do holocausto de uma sociedade,
Que nós construímos e destruímos.
Pois os verdadeiros cães...
Sempre fomos nós.

CARLOS MEDEIROS

Miséria Humana

AOS QUE VÃO NASCER

É verdade, eu vivo em tempos negros.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
Indica insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.


Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranquilo
Não está mais ao alcance de seus amigos
Necessitados?


Sim, ainda ganho meu sustento
Mas acreditem: é puro acaso. Nada do que faço
Me dá direito a comer a fartar
Por acaso fui poupado (Se minha sorte acaba, estou perdido!)


As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque tem!
Mas como posso beber e comer, se
Tiro o que como ao que tem fome
E meu copo d'água falta ao que tem sede?
E no entanto eu como e bebo.


Eu bem gostaria de ser sábio
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
Levar sem medo
E passar sem violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer:
É verdade, eu vivo em tempos negros.


À cidade cheguei em tempo de desordem
Quando reinava a fome.
Entre os homens cheguei em tempo de tumulto
E me revoltei junto com eles.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.


A comida comi entre as batalhas
Deitei-me para dormir entre os assassinos
Do amor cuidei displicente
E impaciente contemplei a natureza.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.


As ruas de meu tempo conduziam ao pântano.
A linguagem denunciou-me ao carrasco.
Eu pouco podia fazer. Mas os que estavam por cima
Estariam melhor sem mim, disso tive esperança.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.


As forças eram mínimas. A meta
Estava bem distante.
Era bem visível, embora para mim
Quase inatingível.
Assim passou o tempo
Que nesta terra me foi dado.


Vocês, que emergirão do dilúvio
Em que afundamos
Pensem
Quando falarem de nossas fraquezas
Também nos tempos negros
De que escaparam.
Andávamos então, trocando de países como de sandálias
Através das lutas de classes, desesperados
Quando havia só injustiça e nenhuma revolta.


Entretanto sabemos:
Também o ódio à baixeza
Deforma as feições.
Também a ira pela injustiça
Torna a voz rouca. Ah, e nós
Que queríamos preparar o chão para o amor
Não pudemos nós mesmos ser amigos.


Mas vocês, quando chegar o momento
Do homem ser parceiro do homem
Pemsem em nós
Com simpatia.

BERTOLT BRECHT
















domingo, 11 de outubro de 2009

Lágrimas
















AUSÊNCIA

Ele apenas chorava,
Sentado ali na calçada.
Suas mãos apoiavam sua cabeça,
Que pendia de forma desesperada.
Seu corpo estava curvado,
Como se ele suportasse,
Todo o peso do mundo,
Lágrimas brotavam,
Escorriam pelo seu rosto.
E se lançavam no espaço,
Até tocar o chão.
Desfaziam-se então em mil pedaços,
Que não se juntam mais.
Ele não dizia uma palavra,
Não expressava um sentimento,
Não esboçava uma reação,
Apenas chorava...
Abandonado com sua solidão.
Em seu peito o grito calava,
Pois no silêncio do seu sofrimento,
Uma lembrança se faz insistente.
Trazendo para ele novamente,
A dor de um amor ausente.


 
CARLOS MEDEIROS

último Desejo




















LEMBRANÇAS DE MORRER

Quando em meu peito rebentar-se a fibra
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro
Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh' alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade
É desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade
É dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas....
De ti, ó minha mãe! pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai... de meus únicos amigos,
Poucos - bem poucos - e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoidecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei...
que nunca
Aos lábios, me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores....
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo...
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecidas,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida..

Sombras do vale, noites da montanha,
Que minh' alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d' aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua prantear a lousa!
ÁLVARES DE AZEVEDO

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Último Gole





















DIA DE DESPEDIDA

Quero uma xícara de café
Para acordar.
Um copo de guaraná,
Para me exercitar.
Uma taça de licor,
Para digerir.
Uma tulipa de chopp,
Para me alegrar.
Uma garrafa de vinho,
Para apreciar.
Uma dose de whisky,
Para relaxar,
Outra para esquecer,
Mais uma para entorpecer.
Quero um dedo de cicuta,
Para poder adormecer
Para sempre...

CARLOS NEWTON

Ressaca





















EMBRIAGUEM-SE

É necessário estar sempre bêbado.Tudo se reduz a isso;
Eis o único problema.
Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo,
Que vos abate e vos faz pender para a terra,
É preciso que vos embriagueis sem cessar.
Mas de quê?
De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.
Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes,
Nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso,
Na desolada solidão do vosso quarto,
Despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida,
Perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
A tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola,
A tudo o que canta, a tudo o que fala,
perguntai-lhes que horas são;
E o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio,
Hão de vos responder:
É hora de se embriagar!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo,
Embriagai-vos;
Embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.

CHARLES BAUDELAIRE

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Desesperado Erro...
















ILUSÃO

A noite silencia para ouvir nossos lamentos.
Nossos peitos gritam a dor desses tormentos.
E as lágrimas inundam nossos corações.
Quem são esses que se opõem ao nosso casamento?
Quem são esses destruidores de emoções?
Que fazem cair sobre nós o firmamento,
Afligindo-nos com esse eterno sofrimento.
Bem sabes do meu secreto sentimento,
Que sem teu sorriso prefiro morrer.
E se minha vida você não pode ter,
Ninguém jamais terá.
Você confessa a mesma libertadora intenção.
E segurando forte a minha mão,
Diz que nem o anjo da morte irá nos separar.
E se o destino assim o desejar,
Será no paraíso que eternamente iremos nos juntar.
Encorajados pelos sentimentos despertados
E seguros que isso não iria mudar.
Com um beijo, selamos o pacto dos desesperados.
Então a lâmina brilha com a luz do luar.
O aço frio abre o meu peito.
Fazendo o meu coração sangrar.
Cambaleando te procuro,
Mas não consigo te encontrar.
Desesperado grito teu nome, em vão...
Só escuto você a chorar.
Num último instante lhe estendo a mão.
Mas o medo te faz afastar.
Entendo agora que estou sozinho.
E que sofrerei por este eterno caminho,
As conseqüências deste horrível crime.
Compreendo então,
Que grande é a ilusão.
Daquele que acredita,
Que é eterno o que dita,
A força de uma paixão
E num último suspiro cai meu corpo,
Na mais profunda e solitária escuridão.


CARLOS MEDEIROS

domingo, 27 de setembro de 2009

Lembranças Eternas


























PARA HELENA


Vi-te uma vez, só uma, há vários anos,
já não sei dizer quantos, mas não muitos.
Era em junho; passava a meia-noite
e a lua, em ascensão, como tua alma,
nos céus abria um rápido caminho.
O luar caía, um véu de seda e prata,
calma, tépida, embaladoramente,
Em cheio, sobre as faces de mil rosas,
que floresciam num jardim de fadas,
onde até o vento andava de mansinho.
Caía o luar nas faces dessas rosas,
que morriam, sorrindo, no jardim
pela tua presença enfeitiçado.
Toda de branco, vi-te reclinada
sobre violetas; e o luar caía
sobre a face das rosas, sobre a tua,
voltada para os céus, ai! de tristeza!

Não foi o Destino, nessa meia-noite,
não foi o Destino (que é também Tristeza)
que me levou a esse jardim, detendo-me
com o incenso das rosas que dormiam?
nenhum rumor. O mundo silenciara.
Só tu e eu (meu Deus! como palpita
o coração, juntando estas palavras!)...
Só tu e eu... Parei... Olhei...
E logo todas as coisas se desvanaceram.
(Lembra-te: era um jardim enfeitiçado.)
Fugiu a luz de pérola da lua.
Os canteiros, os meandros sinuosos,
flores felizes, árvores aflitas,
tudo se foi; o próprio odor das rosas
morreu nos braços do ar que as adorava.

Tudo expirara... Tu ficaste...
Menosque tu: a luz divina nos teus olhos,
a alma nos olhos para os céus voltados.
Só isso eu vi durante horas inteiras,
até que a lua fosse declinando.
Ah! que histórias de amor se não gravavam
nas celestes esferas cristalinas!
que mágoas! que sublimes esperanças!
que mar de orgulho, calmo e silencioso!
e que insondável aptidão de amar!

Mas, afinal, Diana se sepulta
num túmulo de nuvens tormentosas.
tu, como um elfo, entre árvores funéreas,
deslizas. Só teus olhos permanecem.
não quiseram fugir e não fugiram.
Iluminando a estrada solitária
de meu regresso, não me abandonaram
como o fizeram minhas esperanças.

E ainda hoje me seguem, dia a dia.
São meus servos - mas eu sou seu escravo.
Seu dever é luzir em meu caminho;
meu dever é SALVAR-ME pro seu brilho,
purificar-me em sua flama elétrica,
santificar-me no seu fogo elísio.
Dão-me à alma Beleza (que é Esperança).
Astros do céu, ante eles me prosterno
Nas noites de vigília silenciosa;
e ainda os fito em pleno meio-dia,
duas Estrelas-d`Alva, cintilantes,
que sol algum jamais extinguirá.

EDGAR ALLAN POE

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Desejo Sem Fim

















A BELA MENINA
Estava sentado à beira da cama,
Que tínhamos acabado de usar.
Ainda meio embriagado,
Pelo vinho delicioso,
Que no teu corpo acabara de tomar.
Notei a porta do banheiro aberta,
E dentro vi a bela menina,
Que diante do espelho, estava a se preparar.
Semblante sério acertava as tranças.
Que a pouco, de forma louca,
Eu ajudara a desarrumar.
Então ela notou o meu olhar.
E com seu sorriso fez meu corpo arrepiar.
Rapidamente a trouxe para mim.
Pois, melhor que vê-la se vestir,
É poder novamente,
Ajuda-la a se despir.

CARLOS MEDEIROS

Homenagem Feminina



















SABER VIVER
Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura... Enquanto durar
CORA CORALINA

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Para Lisgardênia, minhas 2 flores no mesmo botão.























SANTA PACIÊNCIA
És santa de paciência infinita.
Sua imagem serena,
Entre todas é a mais bonita.
Sua voz acalma,
Seu sorriso ilumina,
Sua palavra envaidece.
Seu jeito lembra a menina,
Que a alma de todos enobrece.
És simples na medida certa.
Seu carinho meu corpo entorpece
E com um beijo cala minha voz.
Sem ti sou cego perdido
E sua ausência causa dor atroz.
Sou incompleto,
Meio homem...
Seu altar é o meu coração,
Iluminado pela sua presença eterna.
És companheira, amiga,
Mulher, mãe, menina,
Santa...
Santa paciência.
Por isso peço perdão,
Se alguma coisa te falta.
E pelas vezes que magoei seu coração.
Rezo a tí, que nunca esqueças,
Que te amo demais.
E aconteça o que acontecer,
Não te deixarei jamais.
CARLOS MEDEIROS

Mágica Noite









A NOITE NA ILHADormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha.
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Talvez bem tarde nossos
sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
embaixo como raízes vermelhas que se tocam.
Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
me procurava como antes, quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado
e teus olhos buscavam o que agora - pão,
vinho, amor e cólera - te dou, cheias as mãos,
porque tu és a taça que só esperava
os dons da minha vida.
Dormi junto contigo a noite inteira,
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura.
Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca
saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia.

PABLO NERUDA

sábado, 5 de setembro de 2009

Calvário Brasileiro



















O CRUCIFICADO
Não nasci em uma manjedoura.
Para mim não havia uma gruta acolhedora.
Nem tampouco uma estrela para todos guiar.
No hospital não tinha vaga para mamãe ficar.
Por isso nasci no meio da rua.
Não vieram reis me presentear.
Ganhei apenas um pano velho,
que cobriu minha pele nua.
Os anjos do céu não se puseram a cantar.
Meu pobre pai era carpinteiro,
Mas não pode me ensinar essa profissão.
Pois antes de eu nascer,
foi morto pela polícia.
Seu crime? Além de ser pobre era negão.
E é assim que a revolta inicia...
Não fui à escola e nem conheci o templo.
A rua com suas leis
Foi que me ensinou a grande lição,
De matar para não morrer.
E hoje ha sangue sujando a minha mão.
Negaram-me o futuro, um motivo para viver.
Agora nada mais irá me convencer,
Que algo de bom venha me acontecer...
A cela que agora estou,
Encontra-se superlotada.
E a minha alma foi a sorteada,
Para crucificada morrer.
Na minha via crucie, não há choro ou lamentos.
Nem alguém para aliviar esses tormentos,
Mesmo que fosse por poucos momentos.
Por favor Pai, eu não quero beber desse cálice...
Mas agora está tudo consumado.
E meu corpo jaz pendurado,
Selando o destino que desde o início já estava traçado.
Brasil... Por quê me abandonaste?


CARLOS MEDEIROS

Eterno Racismo



















O CASO DOS DEZ NEGRINHOS
(ROMANCE POLICIAL BRASILEIRO)
Dez negrinhos numa cela
e um deles já não se move.
Fugiram de manhã cedo,
mas eram nove.

Nove negrinhos fugindo
e um deles, o mais afoito, dançou:
cruzou com uma bala...
Correram oito.

Oito negrinhos trabalham
de revólver e canivete;
roupa caqui vem chegando,
fugiram sete.

Sete negrinhos passando
pela rua de vocês;
alguém chamou a polícia,
correram seis.

Seis negrinhos dão o balanço:
bolsa, anel, relógio, brinco...
Houve um erro na partilha,
sobraram cinco.

Cinco negrinhos de olho
na saída do teatro.
Um vacilou, deu bobeira...
Correram quatro.

Quatro negrinhos trombando,
todos quatro de uma vez.
Um deles a gente agarra,
mas fogem três.

Três negrinhos que batalham
feijão, farinha e arroz.
Um se deu mal: a comida
dava pra dois.

Dois negrinhos se embebedam
de brahma, cachaça e rum.
Discussão, briga, navalha...
e fica um.

E um negrinho vem surgindo
no meio da multidão.
Por trás desse derradeiro...
vem um milhão.


BRÁULIO TAVARES

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

esclarecimento


POR MOTIVO DE SAÚDE (RUÍM) ESTAREI POSTANDO NO MEIO DA SEMANA. UM GRANDE ABRAÇO PARA QUEM ME LÊ!

domingo, 23 de agosto de 2009

Renascendo no Amor




















NA DIREÇÃO DO SOL
O que dizer sobre o que eu sinto por você?
Que sinto um enjôo forte no estomago,
Como se eu aprisionasse algo que quer sair,
E que deseja o brilho dos teus olhos.

O que dizer sobre mim?
Que meu corpo é como que clamasse por tua luz.
Minha alma resplandece o que meu coração sente.
Mas minha mente não compreende....

Por isso me calo,
Buscando um silêncio sacro.
Um mantra que me carregue,
Ao paraíso desejado.

Como sonho, vôo em asas de cera.
Que me levam em direção ao sol.
Sem me aperceber do desastre,
Que quimeras lançam em meu olhar.

Só sei que desejo essa queda.
Pois que morte é ilusão.
Renascido seria das cinzas.
Ressuscitado pela força desta paixão...

E é essa loucura que me conduz.
Exageros que me compreendem.
Pois,

Tenho alma de poeta
E coração sonhador.
Sou como uma represa repleta de desejos,
E você é como chuva que me faz transbordar.

CARLOS MEDEIROS

Razões Para Amar

AS SEM-RAZÕES DO AMOR


Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

domingo, 16 de agosto de 2009














BANQUETE
Desmancho-me em suas mãos,
Você me manipula, me prepara,
Devora-me com tesão.
Seu fogo me consome,
Faz arder meus sentidos.
E eu deliro...
Louco...
E eu grito...
Rouco...
E eu caio...
Morto...
Nossa gula é pecado perdoável
E esse querer é loucura insaciável.
Serves em mesa bonita,
Um banquete memorável.
Onde brindamos a perfeita harmonia,
Do intenso sabor do corpo,
Com a leveza da alma apaixonada.
Então comemoramos com esfuziante alegria,
Essa orgia divina.
Nossa fome é eterna
E o desejo nunca termina.


 
CARLOS MEDEIROS



















OS VERSOS QUE TE FIZ

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder ...
Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que foram feitos pra te endoidecer !
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda ...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !

Amo-te tanto ! E nunca te beijei ...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

FLORBELA ESPANCA



segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Jardim Destruído




















CÍRCULO DE FOGO

Eu choro pelo mundo.
Minhas lágrimas caem
Pelos que pranteiam o sofrimento,
De um lar destruído.
De uma família separada,
De um filho morto.
Morto pela ignorância das armas.
Morto pelo flagelo da fome.
Morto pela intolerância humana.
Morto pela tempestade de bombas,
Que chovem em terras áridas
E fazem brotar corpos rotos.
Crescer os escombros.
Florescer o ódio e a vingança.
Vingança que faz cair aviões,
Que destrói as torres,
Que derruba o orgulho
Que se ergue em medo.
Medo que novamente destrói um lar,
Separa uma família
E mata um filho.
Círculo sem fim...
Minhas lágrimas escorrem
Pelo rosto do menininho
Que mutilado chora a dor,
De um mundo doente.
Que ele não queria estar.
CARLOS MEDEIROS

domingo, 9 de agosto de 2009

Jardim do Absurdo

ROSA DE HIROSHIMA

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

VINICIUS DE MORAES

domingo, 2 de agosto de 2009

Triste Reflexo


MIRAGEM
Descrever o que vi...
Você ali sentada à beira do lago,
Seu reflexo distorcido,
Pelas lágrimas que trago
.
Me deixaram petrificado.
Perdido em meu arrependimento.
Silêncio vergonhoso,
De quem foi pego em triste lamento.

Vertente de ódio sem fim.
Desvarios constantes
Atitudes loucas assim
Que nos envenenaram em poucos instantes

Minha lembrança sangrava,
Como se todos aqueles momentos,
Dantes negligenciados,
Voltassem com a força mortal de mil adagas.

No peito a dor aguda do desespero.
Da força impiedosa da verdade.
Que expõe minha putrefata personalidade.
Aos vermes da morte apressada.

De mente atada,
Confuso em meu caminhar,
Passos indecisos,
E a saudade a me dilacerar.

Não posso fazer mais nada,
Pois é passado muito tempo,
E ainda estou preso à miragem,
Da alma da minha amada...
CARLOS MEDEIROS

Eterna Desventura



ANEL



Dá-me um anel; mas que seja
Como o anel em que cingida
Tem gemido toda a minha vida.
Dá-me um anel; mas de ferro,
Negro, bem negro, da cor
Desta minha acerba dor,
Deste meu negro desterro!

Dá-me um anel; mas de ferro...

Sempre comigo hei-de tê-lo;
Há-de ser o negro elo,
Que me prenda à sepultura.
Quero-o negro...seja o estigma,
que decifre o escuro enigma,
Duma grande desventura.

Dá-me um anel; mas de ferro,

Que resista mais que os ossos
Dum cadáver aos destroços
Do roaz verme do pó.

Entre as cinzas alvacentas,
como espólio das tormentas
Apareça o ferro só.

E o teu nome impresso nele,

Falará dum grande amor,
Nutrido em ânsias de dor,
Pelo fel da sociedade...
Que teu nome nele escrito,
Nesse padrão infinito,
Vá comigo à Eternidade.

Camilo Castelo Branco

domingo, 26 de julho de 2009

Dura Realidade

 
Aridez da Alma

Os olhos percorrem o horizonte.
Buscando sonhos perdidos,
Que no pensamento caminha distante.
Por terras de fartura em verdes montes.

Mas o sol arde alto,
Queimando a pele e o chão.
Onde a dureza dessa vida,
Faz sangrar os calos de minha mão.

Os filhos choram pela colheita que não virá.
A mulher luta com os restos de vida
Que no pote de barro está a findar.
E a angústia domina a alma perdida.

E ao fitar a terra morta,
As lágrimas molham o rosto seco.
Recordando-me da chuva que não volta,
Para florescer esse chão, meu último leito.

Os desse mundo estão cegos.
E não enxergam esses tormentos.
No conforto do lar ou do escritório,
Escondem o coração endurecido,
Que não se comove com esses tristes lamentos.

Levanto minhas mãos aos céus.
E uma chuva de força inunda meu coração.
E o grande lavrador do céu,
Semeia a esperança e levanta quem está no chão.

Por isso lembro a todo irmão.
Se Deus nos ajuda a todo o momento,
Fazer tudo ele não pode não.
Pois a caridade só acontece plenamente,
Se todos que podem abrirem o coração e a mão.

A chuva um dia virá
E o verde explodirá no sertão.
Mas até lá,
Por favor, nunca deixe secar,
A bondade que Deus fez brotar,
No solo fértil do seu coração.

CARLOS MEDEIROS


Dura Melodia




Dois Quadros


Na seca inclemente do nosso Nordeste,
O sol é mais quente e o céu mais azul
E o povo se achando sem pão e sem veste,
Viaja à procura das terra do Sul.
De nuvem no espaço, não há um farrapo,
Se acaba a esperança da gente roceira,
Na mesma lagoa da festa do sapo,
Agita-se o vento levando apoeira.


A grama no campo não nasce, não cresce:
Outrora este campo tão verde e tão rico,
Agora é tão quente que até nos parece
Um forno queimando madeira de angico.


Na copa redonda de algum juazeiro
A aguda cigarra seu canto desata
E a linda araponga que chamamFerreiro,
Martela o seu ferro por dentro da mata.


O dia desponta mostrando-se ingrato,
Um manto de cinza por cima da serra
E o sol do Nordeste nos mostra o retrato
De um bolo de sangue nascendo da terra.


Porém, quando chove, tudo é riso e festa,
O campo e a floresta prometem fartura,
Escutam-se as notas agudas e graves
Do canto das aves louvando a natura.


Alegre esvoaça e gargalha o jacu,
Apita o nambu e geme a juriti
E a brisa farfalha por entre as verduras,
Beijando os primores do meu Cariri.


De noite notamos as graças eternas
Nas lindas lanternas de mil vagalumes.
Na copa da mata os ramos embalam
E as flores exalam suaves perfumes.


Se o dia desponta, que doce harmonia!
A gente aprecia o mais belo compasso.
Além do balido das mansas ovelhas,
Enxames de abelhas zumbindo no espaço.


E o forte caboclo da sua palhoça,
No rumo da roça, de marcha apressada
Vai cheio de vida sorrindo, contente,
Lançar a semente na terra molhada.


Das mãos deste bravo caboclo roceiro
Fiel, prazenteiro, modesto e feliz,
É que o ouro branco sai para o processo
Fazer o progresso de nosso país.

Patativa do Assaré